Monitoramento realizado pelo IPH identificou concentração elevada da bactéria E.coli, mercúrio e nitrogênio amoniacal na água bruta do sistema

Cientistas vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS concluíram que a qualidade da água do Guaíba ainda não retornou às condições pré-enchente. Em abril de 2025, um ano depois do evento climático extremo, os serviços ecossistêmicos do corpo hídrico permaneciam fragilizados – enquanto a bactéria E. coli atingiu 14.878 NMP/100 mL, a maior média desde maio de 2024, o mercúrio triplicou e o nitrogênio amoniacal retornou aos níveis observados no pico da inundação. O Guaíba, portanto, teve sua capacidade de diluir compostos químicos reduzida e tem convivido com um efeito de concentração em períodos de baixa vazão.
“O que observamos é que o Guaíba piorou com a enchente. A população não aumentou, mas a poluição continua crescendo. O Guaíba não está dando conta de se tratar naturalmente, porque seus serviços ecossistêmicos estão afetados. Se uma nova enchente acontecer, não sabemos como ele vai se comportar, porque ele não voltou ao que era antes”, explica o docente do IPH, Louidi Lauer.
Intitulado “Dinâmica Espaço-Temporal da Qualidade da Água Durante e Após um Evento Extremo de Inundação no Sul do Brasil”, o artigo que torna público esse achado é fruto do trabalho de Lucas Bohnenberger, Marcos Henrique Gomes Ribeiro, Luana Morais da Rosa, Cláudia Soares Pereira da Silva, Vinícius Duarte Soroka, Lucia Helena Ribeiro Rodrigues, Salatiel Wohlmuth da Silva e do professor Louidi.
Durante os meses em que auxiliaram nos resgates das vítimas, os pesquisadores aproveitaram para coletar água em 22 pontos amostrais. Eles percorreram zonas de bombeamento de água bruta mais densas, como o entorno da Rodoviária, e áreas preservadas, como a Ilha da Pintada, contemplando quatro regiões geográficas de Porto Alegre: Arquipélago, Norte, Central e Sul.

Conforme a pesquisa, o Guaíba é a principal fonte de abastecimento de água potável para 1,32 milhão de pessoas. Por essa razão, o aumento de poluentes exigirá um tratamento de água mais qualificado e, assim, mais caro.
“Inundações extremas degradam a qualidade da água por duas vias dominantes: mobilizam sedimentos, nutrientes, metais e patógenos das superfícies da bacia e planícies de inundação e provocam o transbordamento ou falha de sistemas de saneamento, liberando esgoto não tratado em águas superficiais. [A] contaminação resultante compromete o tratamento de água potável, interrompe o abastecimento público e aumenta o risco de surtos de doenças de veiculação hídrica”, escrevem os investigadores.
Ilha da Pintada é a região menos contaminada da capital
Se por um lado a inundação histórica causou a degradação da qualidade da água na maioria dos territórios monitorados, os níveis de contaminação foram consistentemente menores na Ilha da Pintada. Segundo o engenheiro ambiental e doutorando do IPH, Lucas Bohnenberger, a região das Ilhas recebe influência significativa do Rio Jacuí, o afluente mais limpo que deságua no Guaíba. “A Ilha da Pintada também é menos urbanizada, ali é uma região de proteção ambiental. A natureza serve como uma barreira, como um escudo verde”, esclarece.
Os pesquisadores que assinam a produção científica reforçam, contudo, que a proximidade da comunidade das Ilhas com uma água menos poluída não significa que esses porto-alegrenses estão menos vulneráveis socialmente. A região é a primeira a ser inundada em contextos de cheia e sofreu perdas incalculáveis com a emergência climática de 2024.
Adaptar-se à conjuntura identificada pelos pesquisadores demandará recursos volumosos em coleta e tratamento de resíduos humanos, industriais e agrícolas, bem como no sistema de tratamento de água. Fortalecer o Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE) e a Companhia Riograndense de Saneamento (CORSAN), privatizada em 2023, também tem a ver com resiliência climática, de acordo com Louidi e Lucas.
“Quanto mais fortes os profissionais técnicos dessa área forem, melhor a qualidade do trabalho que é distribuído, do efluente tratado e da água tratada para a população”, destaca o professor. “E consequentemente aumenta qualidade de vida das pessoas”, completa o doutorando.
O acompanhamento e a análise da água do Guaíba realizados pela equipe do IPH foram possíveis graças à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS). O Instituto foi contemplado por um edital no ano da enchente e por outro em 2025, que garantirá o monitoramento até 2028.
Texto: Ana Paula Tavora, bolsista de Jornalismo do Jornal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Reportagem retirada do site da UFRGS: https://www.ufrgs.br/site/noticias/pesquisa-mostra-que-agua-do-guaiba-enfrenta-degradacao-severa-mesmo-um-ano-apos-as-enchentes/?